Palavrão Não Pode Ser Dito, Mas Deve Ser Pensado

Uma análise ousada e divertida que explora o uso de palavrões e a Bíblia, como em Efésios 4:29 e Gálatas 5:12, misturando reflexões teológicas, contexto cultural e anedotas pessoais que desafiam o tabu das palavras "proibidas".
Picture of Redação

Redação

Equipe de redação do portal FPC

P A L A V R Ã O seria uma palavra grande?

Palavrões são palavras socialmente ofensivas, consideradas rudes, obscenas ou inapropriadas. Por isso, são chamadas de “palavrões”: são palavras exageradas, que chamam atenção e podem causar impacto. Elas podem ser usadas para denegrir alguém ou algo, mas também para expressar fortes emoções. Há quem diga que palavrão é palavrão em qualquer tempo e lugar, e há quem afirme que sua forma e significado variam conforme a região e a época.

Como é de se imaginar, o palavrão também é questão que pode ser analisada sob a ótica da fé. Na internet, existem diversos vídeos em que pregadores deixam escapar palavras consideradas ofensivas durante suas mensagens. Um caso recente que gerou celeuma envolveu o Pr. Silas Malafaia, que, em áudios enviados ao ex-presidente Bolsonaro, utilizou termos entendidos por alguns como palavrões. Esse episódio provocou opiniões divergentes: uns criticam totalmente a forma como o pastor se expressou, enquanto outros afirmam que vivemos em uma sociedade que se ofende facilmente com quaisquer palavras.

Aqueles que consideram o palavrão um pecado recorrem a textos bíblicos. Neste artigo, não pretendo afirmar diretamente minha opinião sobre essas celeumas, mas quero contribuir com aquilo que mais me agrada fazer: analisar. Vou analisar o texto bíblico, sua palavra original, seu uso no contexto social da época e suas traduções, além de refletir sobre o próprio uso do palavrão em nosso meio. Sendo assim, não garanto que este texto terá classificação livre (rsr).

O torpe

O texto em questão está na carta que o apóstolo Paulo escreveu aos Efésios 4. 29, na versão ARA e em seguida no texto grego:

“Não saia da vossa boca nenhuma palavra torpe, mas só a que for boa para promover a edificação, para que dê graça aos que a ouvem.”

“πας λογος σαπρος (palavra podre) εκ του στοματος υμων μη εκπορευεσθω αλλ ει τις αγαθος προς οικοδομην της χρειας ινα δω χαριν τοις ακουουσιν”

Tanto no Léxico Grego-Português, da SBB, quanto na Bíblia de Estudo Palavras Chave da CPAD, quando Paulo, em Efésios 4:29, diz para não sair da boca nenhuma palavra torpe, a palavra grega usada para “torpe” é σαπρός (sapros), que, literalmente significa “podre”, “estragado” ou “corrompido”.

O Léxico diz que “torpe/σαπρός (sapros)” é algo “prejudicial, que faz mal” e enfatiza que “torpe/σαπρός (sapros)” está diretamente se opondo a “boa/bom/αγαθος (agapos)”.

Observe o versículo:

“Não saia da vossa boca nenhuma palavra torpe,

mas

só a que for boa para promover a edificação, para que dê graça aos que a ouvem.”

“Palavra torpe” está em contraste com “palavra que for boa”, enfatizando que, neste contexto específico de Paulo aos Efésios, com “torpe/σαπρός (sapros)”, Paulo se refere a algo contrário de“boa/bom/αγαθος (agapos)”

Também, este Léxico demonstra como que “torpe/σαπρός (sapros)” é algo que é “mau ou de péssima qualidade”, demonstrando que essa palavra grega era usada especificamente a plantas ou madeiras que estavam se deteriorando, ou doentes.

Em Mateus 13. 48, σαπρός é usado para designar peixes podres:

“E, estando cheia, a puxam para a praia; e, assentando-se, apanham para os cestos os bons; os ruins (σαπρὰ), porém, lançam fora”

No grego clássico, sapros descrevia frutas apodrecidas, peixes estragados ou madeira deteriorada, sendo algo que não serve para uso e, pior, ainda pode causar dano.

Observe então que, com “torpe/σαπρός (sapros)” , Paulo não se refere direta ou unicamente a “palavrões” como entendemos hoje, mas, abarca um conceito espetacularmente maior. Ele se refere a palavras que degradem, destroem ou contaminam, como as fofocas, por exemplo, as mentiras, as críticas destrutivas e maldosas, a inveja ou qualquer comunicação que não edifique ou traga graça aos ouvintes

O obsceno

O segundo texto utilizado para analisar palavrões está em Colossenses 3.8:

Agora, porém, despojai-vos, igualmente, de tudo isto: ira, indignação, maldade, maledicência, linguagem obscena do vosso falar

νυνὶ δὲ ἀπόθεσθε καὶ ὑμεῖς τὰ πάντα, ὀργήν, θυμόν, κακίαν, βλασφημίαν, αἰσχρολογίαν ἐκ τοῦ στόματος ὑμῶν·

Paulo usa “linguagem obscena/αἰσχρολογία (aischrología)”, que se refere diretamente à linguagem indecente ou obscena.

O Léxico que consultei acrescenta, além de “obsceno”, linguagem “vergonhosa”, “vulgar” e “indecente”. Strong chama de “conversa imunda” e “conversa vil”.

Os sentidos

Obsceno

Uma teoria a respeito da etimologia da palavra “obsceno”, afirma que esta palavra é de provável origem latina, sugerindo que obsceno significaria “fora da cena” (ob scaena), como algo que não deve ser representado. Outros, porém, afirmam que “obsceno” remonta ao latim obscenus, que inicialmente significava “de mau agouro”, “funesto” ou “sinistro”, sem a conotação de imoralidade atual. Outros ainda dizem que o termo é composto pelos elementos ob- (prefixo indicando direção ou intensidade) e caenum (lodo, sujeira ou imundície), sugerindo algo sujo, indigno ou moralmente ofensivo.

Imoral

A palavra “imoral” tem origem no Latim immoralis, formada pelo prefixo de negação in- e a palavra moralis, que significa “relativo aos costumes”. Ou seja, “imoral” significa literalmente algo que é “não-moral” ou “contrário aos costumes e à moral”. 

Pra não cansar você, já adianto que “indecente” é aquilo que “não é adequado”, que “não convém”, que é “inconveniente”.

Curiosidade

Como você classifica as palavras de Paulo em Gl 5.22:

Em Gálatas 5:12, Paulo escreve:

“Oxalá fossem cortados aqueles que vos andam inquietando!”

 Alguns estudiosos sugerem que Paulo pode estar usando um tom irônico, possivelmente se referindo à circuncisão (tema central da carta) de forma sarcástica, como se dissesse “que se castrassem”, “que se cortassem”, “que amputassem o próprio órgão por descuido na hora da circuncisão”.

Será que Paulo estaria sugerindo algo como “Tomara que eles não se reproduzam mais”, usando uma espécie de piada sutil para provocar risos entre seus leitores, possivelmente fazendo uma referência irônica aos órgãos genitais ou a uma cena constrangedora?

Ambiente

Observe comigo que algumas coisas são obscenas, inconvenientes e podres, a depender do ambiente em que elas estão.

A nudez, por exemplo. Um corpo nu é obsceno! Mas quem está olhando, um legista, um médico, os pais, um amigo, o cônjuge, um cirurgião?

As palavras poderiam ser analisadas por este mesmo prisma?

Eu me lembrei que, em certa ocasião, uma irmã de nossa igreja havia me dado seu cartão para comprar material para uma obra na igreja. Quando foi me informar a senha de letras do cartão, ela me disse: “é mu, lu, ká, u” (srsrsr). Eu acho graça até hoje quando lembro. As senhas de letra geralmente eram divididas em 3 monossílabos aleatórios, que você inseria após digitar a senha numérica, na hora de fazer um saque no caixa eletrônico, podendo ser “BO, LE, NE”. No caso do cartão dela, a senha era MU, LU, KU, porém, para que ela não dissesse a última sílaba, me disse que a senha era “MU – LU – K – U”.  Nem Platão pensaria numa saída dessas (srsrsr).

Um certo dia quase caí pra trás da cadeira porque meu obreiro disse no púlpito que a Palavra que ele recebeu do céu foi como uma “porrada” no meu do seu peito. Eu fiquei assustado com aquilo. Fui cobrar dele depois, pra que ele jamais dissesse aquele palavrão no púlpito, e ele me disse que não achava que era palavrão. Tendo eu ficado curioso, pois pra mim aquilo era claramente um palavrão, perguntei de outros, de outros e de outros e, quase unânime, disseram que não achavam que era um palavrão.

Meu avô tinha por hábito dizer “calharo”, exatamente assim como escrevi, brincando em dizer não dizendo o palavrão exato, e eu passei a imitá-lo, até que minha mãe me alertou que eu, por mais que não estivesse dizendo o palavrão exato, queria dizê-lo, ou, ao estar quase dizendo, eu sugeria aos ouvintes que ouvisse o palavrão exato, já que “calharo” era uma invenção do meu avô. Com isso eu fiquei pensando sobre a palavra “caramba” que a gente tanto exclama, se encaixaria na mesma lógica? Concluí que não, pois, “caramba” não sugere ao palavrão exato como “calharo” sugere.

Claramente, na maioria dos casos, as coisas ou palavras obscenas, inconvenientes, impróprias, dependem totalmente do seu contexto e propósito.

De todo modo, não estou dizendo que tudo é relativo, porém, pensando em o quanto toda essa questão ainda pode ser analisada e aprofundada.

Sei também que, em contextos sociais, é o próprio meio que determina quando as coisas são impróprias e inconvenientes, ou o quanto que as palavras estão ofendendo ou não, ou o quanto seus sentidos originais ainda possuem forte sentido ou não, tal como a árvore de natal e a cabeça das crianças penduradas nas árvores (eu acho que fui longe nesse exemplo, mas creio que você entendeu).

Escrito por Fábio Paes Coelho
Pastor, Escritor, Teólogo e Terapeuta
Conheça sobre Fábio Paes Coelho neste link

PUBLICIDADE

Apoie o nosso Portal

Se você gosta do nosso conteúdo e quer nos ajudar a manter o projeto no ar, considere fazer uma contribuição voluntária.

Seu apoio faz toda a diferença.

Clique no botão abaixo e contribua como desejar.

💙 Apoiar
```

Mais recentes

Rolar para cima