É natural pensar que crescer é melhor do que permanecer criança. E isso, claro, está correto até certo ponto. Já vimos muitos ensinarem as crianças a serem adultas, mas hoje quero ensinar adultos a serem mais como uma criança.
Tem um ditado que diz que não se deve jogar fora a água suja da banheira com o bebê dentro. Esse ditado se encaixou perfeitamente no que quero. Não se deve, ao amadurecer, jogar todas as características das crianças fora, mas deve-se preservar “o bebê”, neste caso, as virtudes das crianças.
O imediatismo
A criança vive o agora. Ela se encanta fácil, se distrai rápido e se recupera logo. Essa capacidade de se prender ao momento presente é o que a faz não guardar mágoas, não viver irritada e não se deixar prender por tristezas prolongadas.
O adulto, no entanto, desaprende essa arte. Ele perde a capacidade de se agradar com o presente, de ver graça nas coisas simples, de se deixar prender pela beleza do instante. Vive com a atenção voltada para o que falta, para o que deu errado, para o que o preocupa. Em vez de se encantar com os pequenos momentos bons, acaba se apegando aos pequenos momentos ruins.
A criatividade
A segunda virtude é a criatividade. O adulto tende a engessar seus comportamentos e formas de pensar. A criança, ao contrário, cria, adapta, transforma. Ela não teme o novo, ela inventa o novo.
Mas o adulto, com o tempo, passa a viver de forma automática. Repete os mesmos hábitos, segue a mesma rotina, pensa sempre do mesmo jeito. Falta-lhe criatividade na vida, no trabalho, com os filhos, consigo mesmo. E, sem perceber, essa falta de invenção o torna mais triste e apático. Ele se sente sem graça, sem se dar conta de que a própria rigidez é a raiz da sua tristeza.
O positivismo
A terceira virtude é o positivismo natural. A criança busca o que é alegre, colorido, sonoro, vivo. Prefere o riso à sisudez, o lúdico ao pesado, o leve ao sombrio. Ela tem um instinto que a direciona para o que lhe faz bem, algo que o adulto, em nome da racionalidade, muitas vezes esquece.
Quem convive com uma criança percebe: ela tem um faro especial para o que é bom, um sino interior que badala quando algo desperta alegria. O adulto, às vezes, ignora esse sino. Vê o otimismo da criança como ingenuidade e acredita que o que é mais leve é também menos sério. Mas, muitas vezes, a criança está certa.
A humildade
A quarta virtude é a humildade. A criança cede com facilidade, obedece, se diminui. Não porque se ache menos, mas porque confia. Ela aceita ser conduzida, aceita aprender, aceita depender. O adulto, ao contrário, sente que precisa provar o tempo todo que sabe, que pode, que dá conta. Luta por autonomia, por controle, por afirmação. O adulto deixa de ser humilde porque acredita que precisa cuidar de tudo sozinho.
A credulidade
Por fim, a criança é crédula. Ela acredita com facilidade, e essa credulidade é o que a torna menos aansiosa. Uma criança confia tranquilamente em Jesus no seu Sermão da Montanha. Quando Jesus, no Sermão da Montanha, diz para não se preocupar com o dia de amanhã, com a comida, com a bebida ou com o vestuário, Ele descreve o modo natural de ser da criança e, sabemos nós, que, uma criança não perguntaria como as coisas aconteceriam para que ela fosse suprida, ela simplesmente acreditaria.
O adulto, ao deixar de crer, passa a carregar o fardo da ansiedade.
Essas virtudes das crianças foram desaprendidas pelos adultos.
Eu lembrei da canção O Caderno, de Toquinho, quando, ao falar sobre o caderno, que é símbolo da infância, ele diz:
“Só peço a você um favor, se puder
Não me esqueça num canto qualquer”
A criança que já existiu dentro de você não pode ser esquecida.