A Missão da Igreja e a Soberania de Cristo: De Quem São os Discípulos?
No cerne da eclesiologia cristã e da teologia prática encontra-se a questão da missão da Igreja e de quem são os discípulos, como também uma das ordens mais conhecidas e repetidas em toda a história da Igreja: “Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações” (Mateus 28:19). Esse imperativo, proferido pelo próprio Senhor ressurreto, estabelece a razão de ser do corpo de Cristo na terra. A missão da igreja é fazer discípulos. No entanto, diante de um cenário contemporâneo muitas vezes marcado pelo personalismo e pelo crescimento das instituições religiosas, cabe uma pergunta fundamental e urgente: discípulos de quem ou para quem?
Essa indagação não é um mero preciosismo teológico, mas sim um divisor de águas que separa o verdadeiro ministério bíblico da mera autoglorificação humana. Quando falhamos em compreender a quem pertence o fruto do nosso trabalho evangelístico, corremos o grave risco de desviar a noiva de Cristo do seu verdadeiro Noivo.
A Resposta Textual na Grande Comissão
Para respondermos com exatidão a essa questão, não precisamos recorrer a filosofias humanas ou a estratégias modernas de gestão. A chave interpretativa encontra-se no próprio texto sagrado. Segundo o próprio contexto, no verso seguinte Jesus diz explicitamente qual é a base do conteúdo que deve nortear esse discipulado:
“Ensinando-os a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado” (Mateus 28:20).
Observe que os discípulos feitos pelos Apóstolos deveriam ser ensinados a guardar as palavras de Jesus, e não os dogmas particulares ou as preferências pessoais dos mensageiros. O conteúdo do ensino cristão está ancorado estritamente na autoridade de Cristo. Logo, a igreja faz discípulos para Cristo. Os discípulos que são feitos pelos próprios discípulos pertencem ao Mestre, e não aos mensageiros. Quem prega, ensina ou lidera atua apenas como um cooperador, um canal pelo qual a voz do verdadeiro Pastor é ecoada.
O Confronto de Paulo contra o Personalismo
Essa tendência humana de reivindicar a posse sobre as ovelhas e criar fã-clubes religiosos não é um problema exclusivo dos nossos dias. Na igreja de Corinto, um problema diretamente relacionado a isso foi duramente confrontado pelo apóstolo Paulo. Aquela comunidade estava se fragmentando em facções baseadas na preferência por lideranças humanas. Enquanto alguns diziam: “Eu sou de Paulo” e outros: “Eu sou de Apolo”, demonstrando uma devoção carnal e divisiva aos seus pregadores favoritos, Paulo respondeu com severidade e profundidade teológica:
“Está Cristo dividido? Foi Paulo crucificado por vós? Ou fostes vós batizados em nome de Paulo?” (1 Coríntios 1:13).
A ideia central desse confronto é desarmar completamente qualquer tentativa de usurpação da glória de Deus. Paulo joga luz sobre a cruz e sobre o batismo para mostrar a incoerência daquele orgulho denominacional. Aqueles crentes não pertenciam nem a Paulo, nem a Apolo, nem a qualquer outro líder, mas unicamente a Cristo. Nenhum pastor pagou o preço do pecado da igreja; nenhum líder verteu seu sangue inocente para resgatar a humanidade. Portanto, nenhum homem tem o direito de reivindicar propriedade sobre os remidos.
O Alvo Central da Igreja de Cristo
Precisamos resgatar com urgência essa clareza conceitual em nossos púlpitos e igrejas. A missão da igreja não é fazer discípulos para a igreja, nem para um pastor, nem para uma denominação. Quando uma instituição se torna o fim em si mesma, ela deixa de ser uma embaixada do Reino e passa a ser uma empresa religiosa. Quando um pastor busca prender as pessoas à sua própria imagem ou liderança, ele deixa de ser um despenseiro fiel e torna-se um centralizador.
A missão da igreja é fazer discípulos para Jesus Cristo. O nosso papel é conduzir as pessoas ao arrependimento e à fé, conectando-as diretamente à videira verdadeira. O sucesso de um ministério não é medido por quantas pessoas seguem um homem ou uma marca eclesiástica, mas por quantas pessoas estão submetidas ao senhorio absoluto de Cristo, vivendo em obediência à Sua Palavra.
Conclusão
Que o Senhor nos guarde do orgulho e da vaidade de querer reter para nós aquilo que custou o sangue do Cordeiro. Sejamos cooperadores fiéis, sabendo que o crescimento vem de Deus e que as ovelhas pertencem ao Supremo Pastor. Que nossa pregação aparente apenas a Cristo, e Cristo crucificado, para que a fé dos discípulos não esteja apoiada em sabedoria ou carisma humano, mas no poder de Deus.
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